quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ainda sobre a India..

Quando vejo que a ultima vez que escrevi no blog foi na India e sobre o Rajastao, parece algo que fiz noutra viagem totalmente distinta da que estou agora..parece tao distante e diferente do que vivi recentemente, a palavra diferente e a que mais se pode adequar!

Depois de sairmos do Rajastao vivemos duas semanas intensas no Norte da India, antes mesmo de partirmos para a China, duas semanas marcadas pela montanha e religiao.

Partimos para o norte da India, para os vales onde nasce o rio Ganges, rio mais importante do pais e que influencia toda a cultura Hindu. Haridwar e uma cidade pequena mas que junta milhoes de peregrinos todos os anos. Os hindus vem aqui pedir proteccao para as suas familias e entes queridos, atraves da simbolica oferenda ao rio de velas e flores. Homens e mulheres banham-se no rio para se purificarem. O ritual pode ser feito e visto durante todo o dia, no entanto o mais natural e que seja feito ao nascer ou por do sol.

Fomos ver a cerimonia do por do sol no primeiro dia que chegamos. Quanto mais via menos percebia e gostava desta religiao. A cerimonia consistia num punjab, a tal oferenda ao rio para proteccao dos familiares e entes queridos...mas nao era um simples punjab. Quanto mais se desse de donativo aos oficiais do recinto, mais "eficaz" era o punjab. Depois dos sinos e da musica comecar a tocar era todo um ritual muito similar a um qualquer leilao. "Quem da mais punjab?!100 rupies, 200 rupies. ok, ja vamos em 1.000 rupies. Quem da mais?" Enfim, nao era a cerimonia mais bonita que ja tinha assistido, mas era bastante interessante pela coragem de quem se banhava nas aguas geladas do Ganges com o frio que se fazia sentir, acreditando que se poderia purificar. Eu continuava a acreditar que se eles nao morressem depois daquele banhinho ja seria uma sorte! Sim porque o Ganges e o rio mais poluido do mundo, mas nesta zona (bem perto da nascente) ate me pareceu limpinho...

Fomos depois para McLeod Ganj, mais conhecido como Dharamsala, o Little Tibet indiano que acolhe His Holiness o Dalai Lama, o governo exilado do Tibete e a maior comunidade tibetana no exilio. A cidade e bem no meio das montanhas e a viagem de autocarro para aqui foi uma tormenta de 12 longas horas. Quando chegamos conhecemos uma pacata e simpatica cidade, cheia de tibetanos por todo o lado, repleta de bandeiras religiosas de todas as cores e com vista belissima para os Himalaias. Comemorava-se por esses dias o aniversario da atribuicao do premio nobel da paz ao Big D (sim, agora era assim que o tratavamos...), todos estavam em festa usando os trages tradicionais e os templos todos ornamentados. O templo tibetano aqui era um pequena replica do templo tibetano de Lhasa, cheio de monges em reflexao (e alguns a dormir...)! Dentro do recinto existia tambem um museu sobre a historia e cultura do Tibete, realcando toda a luta que o Big D e as guerrilhas locais tem desenvolvido para a independencia do territorio desde a ocupacao do Tibete por parte da China em 1949. Eram impressionantes os relatos da ocupacao chinesa no Tibete, de como esmagaram a cultura, religiao, tradicoes e fizeram inumeros prisioneiros politicos. Aquele que o Big D anunciou ser o proximo Pachen Lama, quando apenas tinha 6 anos de idade, encontra-se desaparecido ha 10 anos e segundo relatos de populares preso pelo governo chines. Senti me naquele momento uma traidora, pensar que dentro de 1 semana ja estava na China, era como compactuar com a situacao e fechar simplesmente os olhos para a questao. “Aninhas, o judas” estalava na minha cabeca em cada segundo! A saida do museu havia grande aparato na rua cheia de fieis em fila..ficamos com eles a aguardar ate que passou o Big D de carrinha escoltada. O Big D parecia simpatico, sorria e acenava!

Dia seguinte fomos fazer uma caminhada montanha acima, 12 km sempre a subir ate ao pico de Triund..prometia..12 km nao era assim tanto, mas quando comecei a realizar a inclinacao as coisas mudaram de figura! Foi a caminhada mais dura que alguma vez fiz..McLeod Ganj tem uma altitude de 1770 metros e Triund de 2900 metros. Fiquei imensas vezes para tras e o Manu la gritava “forca estas a andar bem, optimo ritmo”, enquanto eu tinha a sensacao que ia cuspir os pulmoes a qualquer instante!!Quando finalmente la cheguei ao cume da montanha, sentia me tao orgulhosa por nunca ter desistido mas uma coisa era certa, o meu sonho nao era ser alpinista:P A vista para o himalaia coberto de neve era lindissima, fizemos um pequeno pic-nic ate que o nevoeiro repentino comecou a esconder a montanha...hora de partir antes que seja perigoso demais! No total foram 8 longas horas de caminhada, uma vista incrivel sobre a natureza intocavel e dores fenomenais do corpo...

Nesse dia a noite partimos para Varanasi, cerca de 25 horas de caminho separavam ambas as cidades. Pela primeira vez o nosso bilhete de comboio tinha a sigla “WL” que desconheciamos, nem ligamos a situacao e saltamos para o comboio ja em cima da hora!!! Ok, e agora onde e o nosso lugar?! Percebemos depois de curtas e dificeis conversas monosilabicas com os indianos que tinhamos ficado em Waiting List e nao tinhamos lugar naquele comboio a pinha!Uns indianos simpaticos la nos deram um espacinho para nos sentarmos no lugar deles na sleeper class, tinhamos de esperar pelo pica para saber o desfecho daquela viagem..conclusao, pagamos 3 vezes mais devido a multa e deram-nos apenas um lugar para os dois, mal tinhamos posicao!

Depois de muito custo nem queria acreditar que tinhamos chegado a Varanasi, The Holy Place! Varanasi (Banana Lassi) era uma das cidades mais caracteristicas da India, com ruas estreitas que se perdem no meio dos bazares de saris!E aquela cidade em que nao se consegue perceber ao que cheira, devido ao misto entre coco de vaca, incenso, flores e poluicao...ficamos numa GuestHouse espectacular junto ao rio e ja me dava por satisfeita por ter encontrado um sitio tao zen! Varanasi e uma cidade que se estende ao longo do rio Ganges, com inumeros ghats de acesso ao rio. Os ghats aqui, ao contrario de Pushcar, eram totalmente transitaveis a qualquer hora do dia ou da noite. Nalguns deles era possivel ver-se a cerimonia de punjab no nascer e no por do sol, noutros fieis a purificarem-se a qualquer hora do dia, outros dois eram crematorios ao ar livre e inumeros simplesmente pontos de passagem, passeio e onde se podia ver jogos de criquet. Alugamos um barco e demos uma volta ao longo do rio, o que mais me impressionou foram mesmo os crematorios a ceu aberto. Aqui era possivel ver todo o processo...os corpos dos defuntos a chegarem em traves de madeira, todos ornamentados e cobertos com tecidos coloridos. Colocados depois sobre pilhas de madeira e incendiados com combustivel. Ficavam ali a arder no minimo 4 horas, enquanto os familiares (so homens) acompanhavam a sua combustao ate ao final. Quando o corpo ja estava completamente carbonizado, parte das cinzas eram lancadas pelo elemento mais importante da familia ao rio. Nao se ouvia um unico choro nem se viam lagrimas, era uma cerimonia de interiorizacao sobre a vida que partia..no meio dos crematorios haviam vacas, caes e cabras a comerem lixo e a remexer nas cinzas..This is India!!!

Varanasi era para mim a cidade mais indiana da India e que nao poderia passar indiferente ao comum do mortal...quantas nao foram as vezes em que nas ruas super estreitas me tive de esmagar contra uma parede para poder passar por uma vaca...

Fomos depois para Darjeeling, cidade perdida nos himalaias e bem famosa pelo seu cha!Chegar a lugar tao longinquo era “aquela” aventura...apanhamos um comboio em Varanasi e a primeira vista ia ser uma viagem terrivel, so gente aos caidos, lixo por todo o lado...enfim la tinha de ser 16 horas de viagem!Depois disso ainda tivemos de apanhar um outro jipe ate finalmente chegar a Darjeeling, o caminho bem torbulento, alias tal como em toda a India, mas as vistas sobre os campos de cha eram magnificas!A cidade ja gelava pela noite apesar de ainda nao ter vestigios de neve e pela manha a vista sobre os Himalaias gelados era soberba!!Visitamos o zoo de Darjeeling com especies protegidas dos Himalaias, no entanto deixava muito a desejar sendo um zoo bem pequeno..mas uma das razoes principais para visitar Darjeeling era mesmo o cha e a sua fabricacao manual, infiltramo-nos numa fabrica de cha e acabamos por sair uns expert acerca do processo!!O cha do “Happy Valley” sai de Darjeeling a custar 1 euro e chega ao Harrods de Londres a custar uns 20 euros...sao os voos que estao caros!!:)

Outro dos imperdiveis de Darjeeling era o nascer de sol com vista para o Monte Everest...porra, este ate poderia ser um dos “perdiveis” pois acordar as 04h da manha com um frio terrivel custou para caramba...la comprei um casaco de pelo e uma manta pelo caminho, estava ja a sofrer demais com aquele frio como uma exilada tibetana perdida nos Himalaias por meses...O nascer do sol foi bonito com direito a grande salva de palmas dos turistas..mas bem dificil de apreciar devido ao frio, porra sabia que do outro lado ficava o Nepal, ainda mais gelado que ali!!!By By Nepal, ficas para uma proxima!

Fomos para Kolkata mas desta vez ja so de passagem para a China. A cidade ia ficar na memoria como uma cidade com uma enorme influencia colonial e super super pobre...para quando algum investimento por aqui?!!Os carros ainda eram os da era britanica e por muito que a Madre Teresa tenha feito pelas pessoas e exilados desta cidade, a verdade e que ainda hoje era marcada pela divisao da India apos independencia...

Fisicamente ja estoirados precisavamos de descanso mais que merecido..voamos para Kunming, na regiao do Yunnan, deixando para tras um pais com uma variedade cultural gigantesca que contrastava com a pobreza e lixo...estavamos a precisar de algo diferente, algo mais facil e limpo!